Na livraria da rua das janelas verdes vive uma leoa, que devora o mal, um macaco, que ornamenta a vida, e um hipopótamo, que apenas dorme. Existem monstros que são frutas e anjos que são rios. Nesta livraria, a noite não existe e o dia não descansa. Há dias em que o céu vive no solo, em que a água é o céu e as árvores são verdes, porque alguém assim as quis. Há alturas em que não existe Inverno e outras que ele dura um ano inteiro. O frio torna-se alegoria e o calor um sufoco.
Há segundas-feiras que os dinamarqueses decidem invadir o plateau e terças-feiras de puro descanso. A poesia grita pelas almas do submundo e a prosa brinca com os deuses do Olimpo. E, novamente, a noite não existe e o dia não descansa. João Catarino é figura presente em todos estes momentos. Velho ele não é, mas também ninguém diz que ele parece novo. Apático, chato e de aspeto pouco interessante, Catarino bebe café do mais negro possível, sem qualquer vestígio de açúcar. Gosta de Billie Holliday, Screaming Jay Hawkins e Big Mama Thornton, ainda que só gabe os clássicos da Clássica. Gosta de verde, cinzento e preto. A sua visão compara-se à de um morcego e não à de uma ave de rapina. Diz “olá”, “bom dia”, “boa tarde”, “obrigado”, “precisa de ajuda?”, “não”, “sim” e “obrigado”. No dia a dia, a sua voz limita-se a estes vocábulos, mas a sua mente interpreta várias danças, ainda que o seu corpo não conheça a fundo nenhuma coreografia. Já namorou bruxas, peixeiras e cantoras e enamorou-se de cavaleiros, condes e encantadores de serpentes. Já fugiu de flautistas e aliou-se a mercadores. Isto tudo claro, das dez às sete. O resto do tempo deambula pela sua cidade natal. Sofredor de insónias, procura o cansaço no profundo buraco da noite. Lê revistas e jornais, porque tem de ser, e vota sempre que é necessário. Tem grandes ideias, mas pouca vontade e, por isso, deixa-se ficar aqui e ali, sem ter muito a acrescentar. Despreza o contacto humano, mas assume a sua necessidade. Tem pensamentos sórdidos, sombrios e alguns até perigosos, mas esconde tudo isto por detrás de uma timidez vedada por um aspeto bem cuidado. Os poucos clientes que lhe passam pelo estabelecimento são quase sempre do mesmo tipo: um ou outro universitário e muitos velhos carrancudos. Apesar da mirabolante vida, que reside dentro da livraria, esta alimenta-se sobretudo de tédio e ameaças de despejos. Na vizinhança, vive-se o novo fenómeno do deserto citadino. Antigos espaços agora alojam mágoa, cólera e frustração ou então um novo género de balbúrdia, que não é melhor ou pior do que existia antes, é apenas novidade.
Hoje é dia 20 de janeiro. Mais um dia de chuva, mas mais um dia de eventos mirabolantes. As maçãs caem do céu e abrem crateras na terra. Um novo sindicato nasce e plantam-se bicicletas em Saturno. A terra explodiu e os homens são balões. No final do dia, o manto escuro já está estendido. João Catarino levanta-se da sua cadeira de madeira, desliga as luzes e está para fechar a porta até que alguém lhe interrompe a ação. Catarino não se vira, só barafusta:
— Estamos fechados. Volte amanhã.
Sem nenhuma resposta da outra parte, o livreiro vira-se para trás e assusta-se com a figura, que travou o fecho da sua livraria. Este estrangeiro visitante empurra a porta com a mão e entra pela casa adentro, ultrapassando o corpo de Catarino.
— Peço desculpa, mas não percebeu o que eu lhe disse? A livraria fecha às sete e já são sete e oito. Saia por favor e volte amanhã. Terei muito gosto em atendê-lo. Amanhã.
— Não posso voltar amanhã. Atenda-me agora — responde o invulgar assaltante.
— Se não pode vir amanhã, venha noutro dia.
— Mas hoje parece-me ser o dia perfeito para o nosso encontro.
O silêncio compôs-se à porta. Catarino nervoso e bastante confuso, volta a dirigir-se ao suspeito sujeito.
— Mais uma vez, não quero ser indelicado, mas peço-lhe que saia. Volte amanhã, por favor.
— Não posso voltar amanhã, porque hoje é o dia do nosso encontro.
— Mas qual encontro, homem? — pela primeira vez, em muitos anos, ouvimos o nosso livreiro a elevar a voz, num tom que adotou muito poucas vezes na sua vida.
Nesse instante, da parte do invasor, nasce um sorriso consideravelmente desconcertante. Os seus olhos fixam-se no rosto do livreiro. Catarino, assustado, pega no telemóvel que tem no bolso e tenta ligar à polícia. O aparelho eletrónico não funciona. Tenta gritar, mas sente a sua boca cosida. Desesperado, tenta fugir, mas uma qualquer força indomável atira-o inexplicavelmente para dentro da sua livraria, senta-o na sua cadeira de eleição, tranca a porta de entrada à chave e acende a luz. Catarino, delirante, conclui em pensamento que só pode estar a dormir. Atingiu um estado de insónia tão grave que já sonha acordado. Sentado e impossibilitado de se mexer, o livreiro olha em frente e apenas vê o sorriso miserável da sua nova e indesejável companhia. Grita para si mesmo “acorda”, mas é em vão. Ele não se vai embora. Este homem anda livremente pela livraria e mexe nos livros, que Catarino entende como seus, pelo menos, até ao momento de venda. A angústia abraça João Catarino com força. Ele sente-se perturbado pela abrupta invasão. Para ele é difícil distinguir o que é real daquilo que é ficção. Tantos livros, tantas histórias e muito pouco sono resultaram num fatídico estado de loucura, do qual dificilmente conseguirá curar. Catarino decide, portanto, assumir aquilo que a literatura sempre o ensinou, ou melhor, aquilo que ele sempre quis que a literatura lhe ensinasse: aceitar este novo estado, esta nova condição. Há muito tempo que o livreiro não consegue distinguir-se como pessoa. A pele que ele hoje veste não é a mesma que o cobre e, por essa mesma razão, encarar esta loucura como um pleno plano de sanidade parece ser a melhor solução. Brindemos a este momento.
— Bem, já que estou aqui, aliás, permita-me reformular, já que estou aqui forçado, diga-me o que quer de mim.
— Nada. Tu é que queres algo de mim e, por essa mesma razão, vim até ti. E podes tratar-me por tu, há muito que nos conhecemos.
Catarino gladia-se novamente com a frustração e volta a não conseguir expressar qualquer vocábulo.
— Eu só estou aqui porque tu me chamaste, ainda que não o queiras assumir.
— E tu quem és, afinal? — pergunta João Catarino, bastante curioso.
— Como assim, quem sou eu? Até me ofendes com essa questão. Há anos que nos conhecemos e é assim que me tratas? Esperava mais respeito da tua parte.
Catarino não consegue esconder a sua cara de espanto e de profunda confusão.
— Se te faz sentir mais confortável, para podermos prosseguir com a tarefa que me trouxe cá, eu posso ser várias coisas. Posso ser sombra, posso ser cor, posso ser fauna. Posso ser tudo aquilo que tu quiseres que eu seja. Posso-me transfigurar em qualquer coisa que o teu ser desejar que eu seja. Eu sou o espelho de quem tu és, em qualquer altura que tu queiras. Posso ser noviça, serviçal, frade ou franciscano. Posso ser soldado, cadete, tenente ou almirante. Eu sou o diabo em forma de gente, planta ou animal. Diz-me e eu serei como me vês.
— E porque teria eu a honra de ser presenteado com a presença de Lúcifer?
— Há anos que caminhamos juntos. As tuas questões começam a ofender-me.
— E o diabo ofende-se com tão pouco! Começo a duvidar da realidade deste nosso encontro. Tenho para mim, que este sonho a qualquer altura acabará e tu deixarás de ser forma. Serás só mais um de muitos, que a minha mente foi criando ao longo dos anos. Não passas de um produto de ficção. Um cliché banal e comum daquilo que a minha mente consegue projetar.
— Vocês céticos, agnósticos são sempre encantadores. Descreem de tudo do mundo, menos de vós mesmos. Esta segurança inabalável fascina-me, deixa-me dizer-te. É bonito, gosto.
— Então se existes, o que vieste aqui fazer?
— Aquilo que tu quiseres que eu faça.
— Vieste para me concederes desejos, é isso?
— Podemos dizer que sim.
— Vês, não passas de um poço de banalidades. Se ao início até me entusiasmavas, ainda que estando eu confuso, agora aborreces-me profundamente.
O estranho invasor volta a esboçar um sorriso sinistro e fala.
¬— Essa é a maneira que encontras para não mostrares medo? Tentas mostrar a tua superioridade, mas não consegues deixar de emanar um odor fedorento a cobardia, borrifado por um leve aroma a condescendência.
Esta conversa desagrada, cada vez mais, ao nosso livreiro. Tenta rebater e argumentar cada frase, palavra e vírgula deste ser, que se diz agora seu amigo. O tempo passa, corre e abranda. A noite entrou verdadeiramente em cena e posicionou-se em palco. As outras duas personagens continuam em atuação (sem público, é verdade), mas com a cabeça virada para a plateia. A conversa entrou em círculos e já edificou uma esfera. Catarino já grita e esperneia. Só depois é que decide falar. Desta vez com clareza, certeza e real vontade. Aquilo que ele agora diz, decifra aquilo que, o seu ser mais profundo verdadeiramente sente.
—Perturba-me essa tua vontade de concretizares os meus desejos, ou melhor, o meu desejo mais profundo. A loucura. Preciso de sentir algo que sei que não está no prazer, no sexo, na comida, nos livros, no homem ou na mulher como inteiros. Eu quero o homem e quero a mulher, mas quero-os quebrados, destruídos, aos pedaços. E que eu os devore no final. O meu corpo aborrece-se todos os dias. Morre a cada instante, porque já não sente, só lê sentimentos. Olho para a rua e está tudo morto, parado, congelado. A nova idade do gelo chegou. Peço-te, por favor, toma a minha forma e deixa-me destruir-te. Quero acabar comigo, sem que me doa a alma. Quero ser um todo e tudo. Deixa-me apertar-te o pescoço e devorar-te até ao fim. Talvez assim deixe de viver só em mim e consiga viver para além disso. Farto-me da minha cabeça, das minhas histórias, do meu mundinho. Estou a ficar cego, já não consigo ver nada. E porque não saio de mim mesmo? Concede-me essa vontade e estarei para sempre ao teu dispor. Tu, diabo, não és apenas um polo, uma secção, um estado. És um plural, onde cabem vários singulares. Por isso deixa-me matar-te. Matar-me com gosto, convicção e prazer. Sim, é isso que eu mais desejo. Não me desiludas agora e concretiza-me esta vontade. Talvez, e talvez só nesse instante, finalmente o mundo desabe. Lá fora e cá dentro.
Depois deste intenso monólogo, aquele ser sinistro, que se diz também diabo, transfigura-se em João Catarino, livreiro de profissão e morto por convicção. Ao ver-se assim, tão claro e disponível, o verdadeiro dono da livraria levanta-se com vigor e começa a devorar com toda a força que tem nos dentes o ser que vê à sua frente. Começa por arrancar os olhos, o nariz e a boca. As orelhas ficaram para o fim. Abre o peito com a força das duas mãos e parte as costelas, uma a uma. O sangue não o incomoda, porque a sua missão é bastante clara. Engole tudo com gosto e lambe os restos com regalo. Nada é desperdiçado. Cheio e satisfeito.
Já é manhã. Nasce assim um belo dia para abrir a livraria.